Por Eduardo Savanachi*
Faz pouco mais de dois anos que escrevo na revista Dinheiro Rural, onde, coincidentemente, trabalho com o Ibiapaba, dono deste blog, que lá tem a ilustre função de ser meu chefe. Na maioria das vezes uma relação tranqüila, a não ser, claro, quando faço alguma merda (rs), mas isso não vem ao caso.
Fato é, que sempre acreditei que agradava o “chefe”. Mas de uns tempos para cá, tenho pensado em alguns episódios que me levaram a questionar essa relação amistosa. A verdade é que tenho sérios motivos para acreditar que o Ibiapaba tomou como hobby colocar minha integridade física a prova e que está disposto a descobrir, na marra, quantas vidas eu tenho. Vejam vocês.
Já há algum tempo, meu generoso chefe decidiu me enviar para o Acre ( e antes que alguém pergunte, sim o Acre existe). A idéia era fazer uma matéria com os seringueiros daquele estado. Chegar lá foi coisa fácil. Só precisei voar por uma hora e meia até Brasília, pegar uma conexão para Fortaleza e de lá mais duas horas e meia até Rio Branco. Da capital do Acre, foram mais 60 quilômetros de estrada de asfalto, quarenta minutos de barco, mais 40 quilômetros de estrada terra e, para finalizar, uma caminhadinha litgh de 30 minutos floresta à dentro. Isso sem falar que o seringueiro que fazia as vezes de guia usava um aparelho por conta de sua má audição.
O problema é que o dispositivo da orelha esquerda tinha se perdido e o da direita estava com a bateria fraca. Com isso, no meio da mata, travamos alguns diálogos bizarros do tipo:
- A fruta daquela árvore é cupuaçu?
- Hein!?/ Onça?? Aqui não tem onça não!
- Há quanto tempo o senhor vive na floresta?
- Hããã!? Se eu já fui mordido por cobra??? Sim. Tem que tomar cuidado, viu!
Vocês hão de convir que ter um guia surdo no meio da floresta amazônica não é lá coisa muito agradável. Apesar de tudo, voltei são e salvo. Depois que voltei do meu passeio pela terra de Chico Mendes, o Ibiapaba já me enviou para o interior do Piauí, onde tive o “prazer” de voar num aviãozinho que mais parecia uma montanha russa. Para o Mato Grosso, onde tive a “alegria” de andar a 180 quilômetros por hora em uma rodovia de mão dupla, com tráfico intenso de caminhões e que tinha um penhasco no lugar do acostamento.

O pior, é que, na medida em que eu vou contando esses meus percalços sempre vejo surgir um sorriso estranho no rosto do Ibiapaba.
A última aconteceu há algumas semanas, quando ele me mandou para o Amazonas, fazer uma matéria de pesca. Fui visitar uma comunidade ribeirinha, próxima a uma cidade chamada Tefé, localizada a quase 700 quilômetros de Manaus. Para chegar lá, ou se enfrenta duas horas de vôo em um pequeno hidroavião ou cinco dias de viagem em uma voadeira, um tipo de lancha popular naquelas bandas. Felizmente, peguei a primeira opção e depois de uma “suave” aterrissagem no meio do rio Solimões, lá estava eu, no coração da Amazônia, com os pescadores de Pirarucu, peixe que pode chegar a medir três metros de comprimento e pesar 100 quilos. Na medida que o fotógrafo Pedro Dias, já apresentado nas histórias deste blog, produzia as fotos, a noite caia e com ela a possibilidade de decolar. Foi então que alguém teve a “brilhante” idéia de ir de barco para Tefé, uma viagem de “apenas” duas horas. A equipe, de umas dez pessoas, se dividiu em dois barcos e partimos na escuridão do rio. Tudo ótimo, não fosse pelos detalhes de o barco que eu estava ter ficado sem luz, o GPS não funcionar e nós ficarmos, literalmente, a deriva por algumas horas, sem enxergar um palmo diante do nariz, naquela imensidão de água doce. Quando já se cogitava a chance de dormimos no barco, eis que uma luz aparece em meio a mata. Era uma das comunidades instaladas a margem do rio. O jeito foi passar a noite no lugar, acomodado em uma rede, sem internet, telefone, luz ou chuveiro, mas felizmente em terra firme.
O melhor de todas essas histórias é que eu, para “felicidade” do meu chefe, ainda estou aqui, são e salvo e pronto para as próximas. Mas, por via das dúvidas, resolvi rever meu seguro de vida e ampliar meu plano de saúde.
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Nota do Blog:
* Eduardo Savanachi é jornalista, blogueiro e escreveu este post por livre e expontânea vontade, que isso fique bem claro… rs
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4 users responded in this post
kkkkkkkkkk ótima história!
Edu, vc está reclamando de quê? Teve o privilégio de dormir numa rede, em uma comunidade ribeirinha!!!!Fez matéria sobre o peixe mais humano que eu conheço (os sons que ele emite parece de um bebê) Também teve o prazer de ficar à deriva no Solimões…risos. Brincadeirinha, mas aproveito para recomendar um livro: 100 dias entre céu e mar, do Amir Klink…tem cenas que vão lhe parecer familiar… rs…
O post é muito bom, mas a dica de livro daria outro livro: “100 dias entre o nada e Bicó”. Desculpe, cumpadre, mas não resisti…rs. Abraços.
Depois eu que sou a alma ruim ainda… O Ibiapaba que se diverte com os imprevistos das suas viagens e eu levo a fama!! Maior injustiça, viu…
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